Sentimentos difíceis: decifre-me e devoro-te?
O parco poder da literatura para decodificar os venenos da alma. Ficar com o problema a partir de uma newsletter da Francesca Cricelli.
Olá,
Demorei dias para acertar uma aquarela representando um bambu-da-sorte, um vasinho que ganhei de aniversário. Trouxe o que deu para ilustrar a newsletter de hoje.
No melhor estilo anacrônico, procurei tecer uma edição válida para diferentes momentos da vida.
Com dúvidas, sílabas e outras proparoxítonas,
Ana Rüsche
[Aviso: não sou profissional da saúde mental, assim, caso sinta incômodos mais profundos sobre seus sentimentos, procure apoio especializado. Conversar com profissionais da psicologia, psiquiatria e psicanálise podem oferecer o cuidado e a escuta necessários.]
Veneno decodificado: decifre-me e devoro-te?
A poeta sustenta sentimentos difíceis
Minha amiga, poeta e tradutora, Francesca Cricelli, escreveu uma edição de newsletter que me fez pensar um bocado, “Chegando na Galícia”. No início do semestre, ela esteve em A Corunha, na Espanha, numa residência literária incomum: o programa apoia a ida de escritoras com crianças, proporcionando uma rede para que possam escrever com mais tranquilidade.
Escolhida para a residência, Francesca viajou com seu filho pequeno.
Diante de uma paisagem costeira de tirar o fôlego, já imagino o vento revolvendo os cabelos e o Oceano estendendo-se em todo seu esplendor, em determinado momento, no lugar da poeta gozar de um estado de realização absoluta, um golpe. Algo a acometeu. Algo difícil. Aposto que você conhece isso, aquela pontada que nos impede de aproveitarmos tudo o que podemos de momentos mágicos da vida. No caso da Francesca, o sentimento ruim era o aperto causado por uma separação momentânea de seu filho. Instantes antes, o garotinho havia sido levado para suas atividades em um acampamento. E o pior, o filhote parecia gostar bastante de sua autonomia e queria conquistar a Galícia com suas próprias perninhas fofas.
Para nossa sorte, a poeta resolveu nos narrar isso na newsletter:
“Hoje, em dez minutos, [meu filho] me dispensou do acampamento, tchau mamain, e eu saí de lá feito barata tonta, sabe dessas que recebem uma borrifada de veneno, meio grogue, não sabia bem aonde ir e o que fazer com tanto tempo livre. Mas afinal não foi para isso que eu vim parar aqui?”
A poeta começou a se perguntar qual o motivo desse incômodo. Aproveitou até um subterfúgio, a garrafinha esquecida em casa, para voltar lá no acampamento. Conferiu se o menino está bem. Claro que estava.
“Que emaranhado difícil de coração e vida, parece que quando posso me lançar o que me prende não é ele mas sou eu mesma que demoro um tempo para entender quem sou sem ele.”
Na newsletter, a escritora usa muito a palavra “sustentar”, “como sustentar a angústia”, “como sustentar esse carinho”.
Separei o episódio para comentar um algo central: no lugar da Francesca sacudir o corpo e procurar se ocupar de outras coisas, ficou ali, “cinco horas e meia com o coração inquieto” e depois nos escreveu seu texto. Poetas fazem esse tipo de coisa. Observar-se. Pinçar os sentimentos ruins, permitir que nos contaminem um pouquinho, de forma que se possível sentir suas garras, suas ações dolorosas até que decifrarmos seus nomes, quando param de serem estranhos, quando param de nos machucar tanto.
Deixar-se devorar até nos tornarmos a mesma e única coisa.
Sustentação em outro episódio, agora sonoro
Diante desse causo da Francesca, sobre sustentar sentimentos difíceis, lembrei de um dos episódios mais bonitos do Incêndio da Escrivaninha, meu antigo podcast, com o Thiago Ambrósio Lage e a Vanessa Guedes. Em março de 2021, no episódio “Morte”, conversamos com a médica Laura Müller, que cuida de pacientes terminais.
Em um momento de sabedoria, a médica nos contou que, eventualmente, quando algum paciente falecia, aquilo também a acometia de forma profunda. Então, ela precisava de espaço para ficar triste, precisava se colocar num canto, quieta, quieta, até que a tristeza a acometesse e, aos poucos, passasse. Não tinha que ser rápido. Era preciso saber o tempo. O tempo triste. A Francesca diria que “era preciso sustentar a tristeza”. Lembrei ainda da expressão filosófica da Donna Haraway, em outro contexto, reivindicando o “ficar com o problema”.
Um café pingado com angústia existencial.
De minha parte, aprendi a conviver com minha melancolia de base, foi o que deu origem ao livro de ensaios Ferozes melancolias, mas são coisas que nunca terminamos de entender. Semelhante a algumas mães, procurando aprender a sobreviver a esses episódios domésticos devastadores. Ou médicas e enfermeiras por um trágico agravamento da condição de seus pacientes. Você pode nomear o seu sentimento. Ao longo dos anos, isso me fez mais calma, mais melancólica, um tantinho mais sábia.
Nunca passa rápido.
Nunca passa sem as palavras.
Um demoninho que não consigo nomear
Tudo isso para te contar que, outro dia em São Paulo, reencontrei um sentimento que há muito não me visitava. Na minha cidade natal, em que tudo é pressa e hostilidade, não deu tempo. Mal encarei o monstrinho, titubeei e ele terminou me devorando. Em pedaços, tampouco tive pistas para adivinhar seu nome, a criatura seguiu dançando na frente dos olhos, balançando a bunda, fazendo pirraça. É insuportável.
Se você mora numa grande cidade no Sul Global, talvez reconheça a criatura: é uma misturinha de medo, cansaço e raiva. Se souber o nome, me conte.
Olhe, medrosa eu sempre fui (embora, curiosamente, nunca tenha sofrido o temor de falar em público). O medo é um companheiro da mulher metropolitana, em especial à noite, horário em que sempre trabalhei, em especial dando aulas. Daí esse tempero é comum, com a pitada do cansaço que nos inunda, quando o metrô atrasa mais do que o esperado; ou quando o ônibus chega abarrotado num horário em que deveria estar vazio; ou choveu e a cidade virou o mar vermelho cerrado de luzes contrárias. Mas é a raiva é uma coisa mais específica, mais irritante: quando um homem nojento olha para você de baixo a cima, deixando claro que poderia fazer alguma coisa, mas não fará. Não fará?
Conseguiu reconhecer o demoninho?
O disparador foi uma cena que preferi não narrar. Dessas coisas besta. Mas olha, era noite, um cara forte e barbudo passou na minha frente na fila do supermercadinho do bairro e, na sequência, pegou as sacolinhas verdes, daquele plástico fedorento, que a atendente destinara às minhas mexericas. Não consegui retrucar a grosseria. A atendente fingiu que não viu, o cara era grande, ela já queria fechar o caixa. Saí com as mexericas nas mãos e com uma rua escura do lado de fora. Não tive habilidade em descrever tudo o que esse minúsculo instante num final de dia ruim me proporcionou. A anti-epifania, chumbrega e antropocênica da classe média. A paralisia por raiva, irritação e medo temperada por cansaço. Se fosse um frasco de esmalte, qual nome a misturinha teria?
Bom, foram dias e simplesmente não sei. Não consigo nomear. Não consigo me sentar em sua companhia por horas. Uma espécie de sentimento que me leva à ação, às fantasias de violência (aprendi a expressão com a Renata Corrêa). Para revidar. Para se vingar. Para agredir.
“Pois o tempo é o ingrediente essencial. Mas no mundo moderno, não há tempo.” Quero morrer com a serenidade dessa frase (que amo!) da bióloga Rachel Carson.
Na realidade, não é só o tempo que me escorre, uma areia indo embora, sendo varrida da imensa ampulheta devoradora; são as ilusões, as memórias, a vontade de encontrar com curiosidade um outro, o que me permite olhar o demoninho nos olhos e o abraçar.
Não hoje. Não na fila do supermercadinho. Não exausta de final de dia. Esse tempo ainda não me chegou.
Diluição em aquarelas de bambu-da-sorte
As maritacas abrem o calor do céu. É manhã, estou longe de São Paulo com uma promessa de novo dia. Nem isso me faz deixar de odiar as pessoas sábias e calmas. Abri meus materiais e pratico mais uma tentativa de aquarela de bambu-da-sorte.
A água é puro descontrole, tudo mancha. A seca de Brasília impõe um ritmo marcial ao mundo. Inclusive às pinturas de iniciantes. Enquanto isso, rumino. Depois, escrevo mentalmente essa edição lavando os pincéis no tanque de lavar roupas. Na sequência, me sento, como em todos dias, mais uma vez ao teclado. Não passo esmalte nas mãos, senão arruinaria as unhas, pois a digitação é enfática.
Diante da luz do dia que surge, faço o que sei. Incutir em você o que não sei o nome. Até que tudo se dilua, como os pigmentos na aquarela na manhã calorenta na Capital Federal, como as luzes vermelhas chuvosa e escura na São Paulo. Sem querer, ao tentar me vingar e te incutir com meus demônios, acabei os nomeando, oblíquos.
Não me devoraram hoje, só fizeram cosquinha.
Mas um dia praticando a escrita, essa forma boba de insistência. Entre as sílabas, as dúvidas e o algo difícil. Sustentar o que não tem forma, até que palavras desenhem sua silhueta. Nossos pobres problemas, belos e insuportáveis.
Dicas de leitura
📖 Inventário. Último livro de poesia da Francesca Cricelli. Ed. Nós.
📖 “Fantasia de violência”. Conto da Renata Corrêa publicado na Revista Amarello, #53. Faço a curadoria da área de literatura da revista, um prazer trabalhar nesses bastidores.
📖 Primavera silenciosa. Clássico da Rachel Carson, trad. Cláudia Sant’Anna Martins, Ed. Gaia.
Outras leituras
📖 Cesar Lattes: uma vida, de Marta Góes e Tato Coutinho. Não sabia quase nada sobre o homem que nomeia nossa mais temida plataforma acadêmica. Uma biografia para quem gosta de Física e de pensar as mudanças na ciência. Ed. Record.
📖 A prática do urban sketching: 25 exercícios para desenhar na rua, de Jens Hübner, trad. Denis Fracalossi. Uma forma de exercitar o olhar quando as palavras se cansam. Ed. Olhares.
📖 Miolo do verbete, de paulamaria. Poemas curtos que passam por ruas, praias, memórias e saudades. Para ler devagar e pensar na vida. Mormaço Editorial.
Bambu-da-sorte
O nome dessa espécie elegante é Dracaena braunii, originária da África Central e espalhada por lares ao redor do mundo por sua resiliência e votos de boa fortuna.
Sobre esta edição
Para produzir essa edição foi necessário revisitar várias vezes a cena do supermercadinho. Não recomendo. Agora passou. Ou não. Também foi necessário fazer várias aquarelas para pensar na vida. Errar várias vezes as folhinhas e aguentar a falta de habilidade.
Vixe, demorei bem mais que as costumeiras 4h para fechar a edição. Umas 6h? Como andei cansada, a dúzia horas não garante a qualidade. Na técnica, o duro foi ser piegas sem escorregar tanto. Entretanto, estou feliz por ter negociei comigo mesma esse tempinho, antes de mergulhar naquele ciclo da centrífuga de final de ano (fechar um original de não ficção, entregar um artigo acadêmico para o final do mês, estudar um poeta chileno e sabe-se lá o que devo-não-nego-pago-quanto-puder).
Assim, agradeço às valorosas pessoas que apoiam a newsletter. Se não fosse você, não teria parado a centrífuga da vida para enfrentar o teclado e sustentar o problema 🧡
Agradeço a leitura!
Obrigada por estar aqui, respirando lado a lado. Se gostou da edição:
🧡 Conte: qual sentimento difícil você aprendeu a decodificar?
🧡 Causos de fila do supermercado?
🧡 Reenvie para alguém que possa gostar.
🧡 Apoie a Anacronista em apoia.se/anacronista.
Telegram: t.me/criatividade
Instagram: @anarusche
Conheça: Ferozes melancolias: o amor, a viagem e a escrita.
Um dos temas do livro é justamente o escrever acompanhado pela melancolia. Se não parece um mote animador, juro que tem seus momentos ;)





Amiga tão amada, que honra ter inspirado essa reflexão. Você é simplesmente genial e tão sensível. Se tem uma só coisa que tenho saudade do passado, é de uma época com menos responsabilidades quando eu e você podíamos gastar uma tarde e noite juntas papeando da vida. Te amo! Obrigada! E “Um café pingado com angústia existencial” é genial. Já poderia ser o título de um livro de aforismos seus!
"Nunca passa rápido. Nunca passa sem as palavras." - você disse tudo, Ana. Por isso, precisamos de letramento emocional. Não sabemos sequer nomear os mais triviais sentimentos (ou sensações, percepções, emoções). :)